Valéria Pinheiro

1) Você é natural de qual cidade?
Eu nasci numa cidade do estado do Ceará, chamada Juazeiro do Norte, é a terra do Padre Cícero, sou romeira!
2) Como e quando você ingressou ao mundo do “TAP”?
Na verdade sou autodidata. Meu pai é um exímio sapateador de danças brasileiras, entre elas o xaxado, aprendi com ele alguns passos, e ele mesmo me presenteou com um sapato de sapateado e em meados de 80 comecei a “brincar” com esses sapatos “mágicos” e descobri entre outras coisas o prazer do fazer ritmo.
3) Quem foi seu(a) primeiro(a) professor(a) de sapateado?
Considerando que foi meu pai o primeiro a me ensinar, diria ter sido ele, mas em se tratando do tap dancing americano meu grande mestre foi Luccianni Lucciane um italiano que passou pelo Ceará no final de 80 e nos deu a oportunidade de entrar em contato com essa arte.
4) Depois de quanto tempo você resolveu criar a Cia. Vatá?
Em 1982, passou pelo Ceará Tânia Nardini, que em vendo o meu potencial me convidou a ir pro Rio de Janeiro com ela e ingressar na sua escola “Centro de Artes do Tempo”, e depois de três anos atuando e sendo orientada pelos professores do CAT resolvi formar minha primeira companhia de dança que chamou-se CATSAPA, uma homenagem ao Centro de Artes do Tempo, só em 1994 fundei a Cia. Vatá (Companhia de Brincancates Valeria Pinheiro) com a qual atuo no mercado artístico até hoje.
5) Porquê resolveu criar a Cia. Vatá?
O CATSAPA se transformou numa escola de artes cujo objetivo era a formação de novos talentos pra musicais, se tornou como é até hoje, a Escola de Musicais. E então resolvi destacar dentro desse espaço uma companhia de dança com objetivo de pesquisa de linguagem e em 1994, ainda dentro do espaço Catsapa, criei a Cia. Vatá, que na época tinha como madrinha a Tânia Nardini.
6) Seus espetáculos, corporalmente falando, são sempre muito ricos. Baseado em que você os cria?
Como falei antes, em 1994 introduzi com a Cia. Vatá, uma pesquisa de linguagem, venho de uma tradição de danças brasileiras onde o corpo assumiu um papel central e com devires múltiplos, foi baseada nesse universo que criei essa companhia de pesquisa de linguagem, e a cada universo pesquisado um leque de células rítmicas e corporais era levantado, material suficiente pra uma futura composição coreográfica, e assim nasceram: “Brasil de Todos os Ritmos”, “Vatá Brasil 500”, “Cabaré, Brasil”, “Som@” e tantos outros espetáculos que pra Cia. Vatá, ainda no Rio de Janeiro foram de suma importância.
Em 2000, a convite de Flavio Sampaio, que estava introduzindo no Ceará um curso superior em dança junto a Universidade Gama Filho, fui convidada a compor o corpo de professores, precisava desse empurrãozinho pra voltar as minhas raízes, e assim o fiz, em janeiro de 2000 voltei pro Ceará. E em março já estava, por audição, escolhendo um “corpo” pra compor a Cia. Vatá genuinamente cearense. E com esse elenco nasceram: “Bagaceira, a dança dos Mestres”, “Bagaceira, cana e Engenho”, “Nudobarro”, “Ritos”, “Bagaceira, a dança dos Orixás”, “Bagaceira a dança dos Ancestrais”, e estamos em fase de pesquisa para “Caçadores de Pipa”, espetáculo que nos levar a mergulhar no universo do samba brasileiro a partir da diáspora do negro no Brasil. Mas isso é uma outra história....
Ao longo desses quase 6 anos juntos, nós da Cia. Vatá cearense desenvolvemos uma técnica, que intitulei “Corpo Brincante” onde o corpo assumi devires múltiplos e “brincando” se imprime de importantes informações, e temos levado pro mundo essa técnica, a qual tem sido muito bem aceita, já temos adeptos em vários estados do Brasil, assim como vários países do mundo, o que nos faz crer ser essa técnica consistente.
7) Conte-nos um pouco mais sobre seu novo show?
Estamos pesquisando as influencias rítmicas que levaram ao samba, e estivemos já na Bahia, onde pesquisamos o samba de roda e o samba de chula, já passamos pelo Maranhão onde entramos em contato com o samba de crioula, e pelo Pernambuco onde entramos em contato com o côco, todos esses são ritmos com raiz africana e que contribuíram de forma avassaladora pro samba que o mundo conhece como um símbolo da identidade brasileira.
Nossa pesquisa parte de uma vertente da historia que acredita que esse ritmo nasceu da junção dos ritmos dos índios Kariris no sertão do Ceará, com os Lundu na Bahia e a influencia da cultura portuguesa, é nesse víeis da historia que estamos mergulhando.
“Caçadores de Pipa” deve estrear em abril de 2007.
Com relação a pesquisa corporal, vou levar os corpos da Cia. Vatá a mergulharem no andar que tais ritmos imprimiram, e daí compor um leque de opção que nos levarão a estética que escolhi pra ressaltar essa diáspora do negro no Brasil.
8) De onde veio a inspiração desse novo show?
Desde que começamos a pesquisa dentro do universo “corpo ritualístico” que nos levou a trilogia: “Bagaceira, a dança dos Mestres”, “Bagaceira, a dança dos Orixás” e mais recentemente, fechando a trilogia “Bagaceira, a dança dos Ancestrais”, nos ficou resquícios da historia do negro e sua influencia na cultura brasileira. E tínhamos várias perguntas que ainda não haviam sido respondidas pelas pesquisas anteriores. E resolvemos seguir a pesquisa pela diáspora do negro, tendo como foco o samba que é sem dúvida um dos arquétipos mais ricos do Brasil.
E na nossa ida pra Nova York em novembro do ano passado, encontramos no aeroporto de Nova York um livro de um francês Jean Paul Delfino chamado “Corcovado”, que falava de forma filosófica e também antropológica da instalação da estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro, nos dando uma visão ampla dessa época, e aqui entramos em contato com o espaço que o samba tinha no Rio de Janeiro e que já trazia no seu matulão as influencias do negro no Brasil. Nasceu em mim a vontade de explorar esse universo, e em Nova York, num dos ensaios no central Park, nasceu “Caçadores de Pipa”, nome sugestivo por terem sido as Pipas e suas cores símbolos do samba nos morros do Rio de Janeiro, mas ainda temos muito chão pra percorrer...
9) Sua Cia. é internacionalmente reconhecida, já passou por vários países da América e Europa. Qual a receita de tamanho sucesso?
Acredito que não exista nenhuma recita pré-estabelecida, mas muito trabalho e consciência de sermos, nós artistas brasileiros, responsáveis por parte da história que compõe a identidade brasileira, e a conseqüência desse amor e carinho tem sido o reconhecimento do nosso trabalho no Brasil e no mundo. O que nos deixa abertos pra criar e ir cada vez mais fundo em nossa história.
10) Se você fosse resumir a sua carreira e a sua Cia. em uma frase, qual seria?
“A conseqüência de um trabalho árduo e consciente é sem duvida um trabalho verdadeiro”
11) Esse ano você irá ser jurada em Joinville mais uma vez. Qual a sua opinião sobre o festival?
Acredito que Joinville vem abrindo-se pro novo e ajudando a construir um pensamento mais consciente do que seja “dança”.
É lá que se apresentam os mais novos coreógrafos brasileiros, e a junção de tantos bailarinos e criadores só melhora e amplia a construção desse pensar.
Acredito e muito nessa junção de pensares, pois de forma informal vão-se ampliando os fazeres e as trocas, responsáveis, mais tarde por uma construção mais consciente da formação e difusão da dança no Brtasil.
12) Na sua última passagem por lá, no ano de 2002, você foi responsável por grandes mudanças que ficaram marcadas na história do sapateado brasileiro. O que você acha de tamanha reviravolta?
Acredito que as mudanças se deram pela verdade da cena. Tínhamos aos nossos olhos um bailarino que vinha da linguagem “sapateado” como grande destaque, e embora a cultura do Festival fosse, talvez, não presenteá-lo por não vir de linguagens mais acentuadas como Clássico ou Jazz ou mesmo moderno, lutei pra que essa verdade viesse a tona. E conseguimos! E de forma unânime os jurados e integrantes da mesa julgadora de Joinville concordaram comigo, mas principalmente por ser verdade tal proposição, e aqui poderia ter sido um integrante que viesse das danças folclóricas ou mesmo de uma outra linguagem sem tanto enfoque pelo Festival, o que ficou marcado pra mim foi a possibilidade de uma visão verdadeira do corpo de jurados. Porque não ter como destaque um bailarino que proveio do sapateado? Foi essa minha indagação o tempo inteiro...
13) Por onde passa, Valéria Pinheiro parece um “Tsunami” de cultura, boas energias e conhecimento. Qual a fórmula de tudo isso?
Fico lisonjeada com sua analogia, mas prefiro pensar que esse Tsunami constrói ao invés de destruir... rsrsrsrsrsrsrsrsrsr.
Sou uma arte-educadora e acredito na mudança e construção do cidadão pela arte. Vivemos num País de diferenças sociais, diferenças de pensares e com poucas oportunidades, mas acredito que na arte essas diferenças não existam, e é nesse viés da vida que quero mergulhar. Um bom cidadão artista será um bom ser humano sempre. E bons seres humanos construirão melhores nações.!
Sou uma apaixonada pelo “bicho homem”!
14) Na sua última passagem pela CBS, você deixou impresso um estilo e modo de dançar altamente peculiar. Em seus workshops, o que você deseja que as pessoas levem pra vida?
“Corpo Brincante” tem sido a técnica que venho difundindo pelo Brasil e alguns países, como te falei antes, justamente porque acredito que seja “brincando” que iremos entrar em contato com a nossa dança pessoal, a mais verdadeira das danças, e essa técnica de forma geral, contribui pra esse encontro. Fico feliz em testemunhar, por tantas vezes, jovens entrando em contato com sua própria dança e fazendo disso o seu caminho, incorporando outras técnicas e aprimorando seu próprio estilo. Fazendo disso o seu próprio mapa de identidade na dança. Isso me deixa muito feliz!
15) Qual a sua expectativa sobre Joinville esse ano?
Faz alguns anos que venho sendo convidada a ir a Joinville, mas minha agenda não permitiu. Então me dei de presente esse ano ficar pelo Brasil e assistir de perto o cenário da dança feita por aqui. Joinville nos dar essa oportunidade nas várias linguagens, será acima de tudo uma reciclagem pra mim. Minha expectativa é enorme, primeiramente por rever grandes amigos que a distância geográfica e de fazeres nos impede e principalmente por assistir de perto os universos que vêm permeando as “cabeças” dos coreógrafos brasileiros..Estou muito feliz por isso!
16) O “Tsunami” (Valéria Pinheiro) irá provocar mudanças?
Não vou com esse intuito, mas com certeza não abrirei mão do que acredito ser certo num pensar dança! Levarei meu ponto de vista o mais longe que me for permitido!
17) O que você teria a dizer sobre nós, sapateadores da CBS?
Sou uma fã incondicional do talento de Adriana, a conheci ainda na batalha pelo aprendizado e ao longo dos tempos venho acompanhando a dedicação e carinho com que ela vem levando sua escola e companhia. O resultado não poderia ser outro, se não um trabalho rico tecnicamente, consistente e duradouro. A tendência é com certeza o reconhecimento do trabalho pelo público, que já se dar de forma acentuada!
18) Quais as novidades que Valéria Pinheiro levará a Joinville 2006?
Anos de experiência na área que me deixarão livres pra julgar com consciência e verdade o que me for mostrado. Acredito que trarei de lá muitas novidades, muito mais do que estarei levando....
19) Pra você, o que é um bom trabalho (coreografia)?
Aquele trabalho que visa agregar um contexto, uma técnica e uma verdade em corpos e mentes prontos pra falarem e defenderem seus pontos de vista com harmonia e beleza.
20) Rapidinha (uma palavra e uma resposta):
- Amor: Família e amigos
- Família: raiz
- Amigos: uma verdade de que vale a pena existir
- Saudades: dos entes queridos que não estão mais entre nós!
- Dança: uma forma de existir
- Sapateado: uma linguagem que me introduz no universo e me mantem viva!
- Corpo: uma biblioteca, quanto mais eu leio, mas tenho pra dar!
- Bagaceira: uma lembrança da minha vida no sertão
- Um livro: “Corcovado” de Paul delfino
- Um Filme: “Pellow Book” uma história da tradição chinesa
- Uma Música: Todas interpretadas por Betanha
- Uma viagem: A Ghana na África onde conheci de perto o Universo que tanto me fascina, o universo do negro!
- Um Nome: Mamãe Mirian e Papai Pinheiro, minhas inspirações
mais vale a pena é viver”
Entrevista concedida a CBS
15:05 @ 15/04/2006
| < Anterior |
|---|