Juliana Castro

1) Quando e como começou a sapatear:
Eu comecei a me envolver com a dança porque eu tinha uma leve diferença de comprimento na perna. Um ortopedista me recomendou fazer bastante alongamento para sanar esta diferença através da atividade física,então fui parar na Expressão Corporal e mais tarde no Ballet Clássico.
Nesta época eu morava em Brasília. Como meu pai era militar nós fomos transferidos para o Rio de Janeiro, dois anos depois. Quando eu cheguei na nova cidade logo tratei de procurar uma academia que tivesse Ballet, pelo prazer de dançar pois a saúde já estava ok.! E para a minha surpresa, depois de já ter feito vários anos desta modalidade no Studio de Dança Therezinha Goulart , eu consegui assistir o segundo e o terceiro ato do espetáculo desta academia. Ele era tão grande que era dividido em três módulos. Um era para Balle Clássico – que eu participava todos os anos, um era para Jazz e outro para o Sapateado. E eu quase que implorei para minha mãe para que nós ficássemos assistindo até o final do evento.
Eu me encantei pela Arte do Sapateado, achei extremamente gracioso, rítmico e dinâmico. O professor era um senhor extremamente carismático, as coreografias eram leves, as pessoas eram felizes no palco, elas dançavam por prazer.
Eu confesso que naquela época eu não podia mais parar de praticar atividade física, a dança já fazia parte do meu dia-a dia.Foi assim, tiro e queda, eu assisti a apresentação, e quando a gente voltou para fazer a matrícula para o próximo ano, eu coloquei como condição que eu só continuaria fazendo Ballet se eu pudesse ter pelo menos a oportunidade de conhecer a aula do Joel Gonçalves – o professor de Sapateado.
Então, minha mãe me levou na aula do Joel, e foi curioso porque eu entrei na sala dele e ele falou assim:
"- Você veio assistir uma aula?"
Eu falei que sim.
"- Ele perguntou: Quanto você calça?"
Eu, na época, sei lá, 33,34... Aí ele disse:
"- Então tä, tem uma bolsa ali no cantinho, procura o seu número e vem sapatear".
Falei: Como assim?
Ele falou: "- É, na minha sala ninguém assiste não, já entra, vivencia, se gostou volta, se não gostou, valeu a experiência.
E... Dito e feito, eu nunca mais consegui tirar o sapato do pé. Eu tinha oito anos na época...
2) O que e quem te incentivou? O que te incentiva até hoje? Há algum ídolo?
Quem me incentivou, com certeza aquelas pessoas que estavam no palco tiveram uma função importantíssima para despertar o meu interesse, porque elas dançavam por prazer, elas sorriam, elas estavam ali de corpo e alma.
Por outro lado, meus pais me incentivaram bastante, aquele leva e trás de academia era complicado, a gente morava no Rio e eles em momento algum titubearam em não me levar. Sem dizer que nunca pouparam esforços para que eu freqüentasse os melhores cursos, obtivesse os melhores sapatos e participasse dos eventos envolvendo dança.
O que me incentiva até hoje é proporcionar às pessoas uma melhoria da qualidade de vida através da prática do Sapateado. As pessoas têm uma rotina louca de vida e muitas vezes é o único momento que elas têm para se desligarem de suas tarefas e aproveitarem o máximo do tempo delas na sala de aula. Buscando cada vez mais o prazer de simplesmente estarem vivas e utilizando outra forma de linguagem – a linguagem do som, do movimento, da rima e do passo em harmonia com a música.
Se eu tenho algum ídolo? Os grandes musicais da Broadway. Nenhum em específico, mas todos aqueles grandes mestres do Sapateado Clássico que foi a base da minha história, então tem Fred Asterie, Gene Kelly, Shirley Temple, Ginger Rogers, tudo aquilo, aquela magia do cinema, aquilo me encanta muito até hoje.
Hoje o grande expoente americano chama-se Savion Glover, o estilo dele é o Power Tap. A apresentação dele é simplesmente um espetáculo!!!
3) Desde quando leciona? O que sente ensinando? Gosta?
Eu comecei a lecionar com 12 anos, eu já tinha quatro anos de prática do Sapateado, sendo que dos quatro correspondia há cinco anos, porque no último ano eu dobrei a minha carga horária porque eu sabia que íamos ser transferidos de novo. E quando nós chegamos em Campo Grande, parei na porta de uma academia e perguntei se tinha Sapateado. Eles disseram que sim e que tinham um professor de fora.
Quando eu voltei uma semana depois, disseram que o professor tinha decidido ir embora e que estavam fazendo uma lista enquanto procuravam outro professor. E eu, assim, muito topetuda, me apresentei como professora, já que eu tinha recebido uma carta de recomendação do meu professor Joel Gonçalves dizendo que eu estava apta a dar aulas de Sapateado. Isso com 12 anos de idade. Foi um trabalho delicioso de realizar, um belo desafio!
Eu sinto ensinando um verdadeiro prazer de estar mexendo meu corpo e produzindo para as pessoas alegria, movimentos, formas e combinações ritmicas.
E se eu gosto? Acho que você consegue perceber, Tereza, o quanto é gostoso estar lá dentro da sala, o quanto eu me sinto bem quando eu dou aula, realmente os problemas ficam da porta da minha sala pra fora, o mundo se transforma e eu me realizo, sem dizer que eu me divirto bastante.
4) Você tem um grupo de sapateado, fale dele, desde quando existe? Quem participa? O que costumam fazer?
Eu tenho um grupo sim, o grupo chama TAP DANCE, ele foi instituído em 1994, nós somos 12 mulheres e um homem. A gente, até hoje, vem apresentando coreografias não só nos Espetáculos das grandes escolas de danças de Brasília, como a Academia Lucia Toller, Academia Rosana Assad, Academia Regina Maura, como na Universidade de Brasília inúmeros trabalhos junto à Faculdade de Educação Física, na FEICOM, na FEIMOV, enfim, a gente já rodou bastante, a última apresentação que nós fizemos foi agora na Abertura do Seminário Internacional de Dança que foi esse ano em julho.
Os participantes do grupo são as meninas que fazem aula comigo a mais de seis anos e nesse ano a gente teve a grata surpresa de ter um homem junto com a gente, então somos 12 mulheres e um bendito ao fruto.
Nós estamos colocando o nosso sonho em prática esse ano, onde a gente tem por objetivo fazer o nosso espetáculo, um espetáculo produzido e dirigido por mim, aonde só vai ter Sapateado.
5) Quais são seus projetos futuros para o sapateado?
A prioridade é popularizar o Sapateado em Brasília e isso eu venho buscando atuando em lugares completamente diferentes, não só em Escolas de Dança - Claude Debussy e Lúcia Toller, atuo também na Universidade de Brasília na FEF, um projeto de extensão que atende à comunidade de 04 à 16 anos.
E tenho também o meu projeto futuro como eu disse anteriormente que é o de fazer um espetáculo apenas de Sapateado.
E uma outra forma de fazer com que o Sapateado atinja a grande massa é uma parceria com uma Cia de Teatro infantil – Néia e Nando, aonde uma vez por ano eu tenho um compromisso de apresentar um musical infantil com muito Sapateado.
6) Como é ou como você vê o sapateado no Brasil? Há estilos brasileiros desenvolvidos? Quais? Desenvolvidos por quem?
O sapateado brasileiro vem passando sim por uma constante transformação e aprimoramento, os professores vem se unido cada vez mais, isso graças a um trabalho de um site chamado “Divulgando o sapateado por aí” que é do Marcelo Batalha, marido de uma grande Sapateadora Mestra Cíntia Martin. O trabalho dele está conseguindo realmente cadastrar, reunir e unificar essa linguagem dos Sapateadores não só do Brasil, mas do mundo.
Há muitos estilos importados do Norte da América de Sapatear: Slides Tap, o Clássico, Softshoes, Power Tap são apenas alguns... A base rítmica geralmente usada é o Blues e Jazz.
No Brasil, temos uma vasta riqueza rítmica, isso faz com que fique extremamente sugestivo trabalharmos esses estilos da técnica americana adaptada aos ritmos brasileiros. Uma professora cearense chamada Valéria Pinheiro desenvolveu a técnica do sapateado Brasileiro. Ela criou seqüências adaptadas aos mais variados estilos e patentiou como o seu estilo próprio de Sapatear, um trabalho de muito estudo criatividade e ousadia rítmica.
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